Assim o comecei, mas duvido que assim prossiga.
Escrever-te é um lenitivo, minha cara. Um bálsamo acre como as velhas plantas pisadas e amorfas, as únicas plantas e flores que nosso vocabulário englobava enquanto moleques a desdenhar do mundo. Conheço-a tão pouco, tão pouco, e tão literal é seu papel nesse ato que a nós calha ser vida, mero porto seguro onde despejam lixo cujo sinônimo, e por favor não ria, é algo que visa a prensa e torcido dentro de uma garrafa, náufragos a busca de outros náufragos em outras ilhas, tudo tão vomitado e errante. Mas Poemas! Monge ao mar, capitões de corveta frente a Onda que avistávamos desde a praia, frente ao canto que ouvíamos deste a casa, frente ao ato que não é mais presente do que um deja vu. É só isso que somos. Poemas como esfinges, replica-me ou te devoro, e que abençoada ética seria o aviso da escassez de criatividade ou excesso tautológico, que maravilhosa descoberta do Inaudito fervorosamente cantada a cada geração de infantes obstinados pela negação, a bradar Que não abram esta carta! E prosseguiriam sobre a sapiência do silêncio, sobre a ingenuidade do poeta, sobre a destreza do iletrado? Nenhum, posso afirmar. O prólogo ou é dispensável ou objeto de imolação.
Faz pouco adentramos na primavera e como sempre não percebi visível mudança. De quando em quando devo fuçar o lado de fora para perceber que o tempo transcorre e só quando encontro fechado um mercado ou um jornaleiro é que dou-me conta que é domingo ou feriado. Segunda, sexta, outono, não plantei árvores neste apartamento que dá para os fundos e não é obrigação de um inquilino ter de varrer as folhas para um canto da calçada. Meu maior calendário, quão inusitado, estampa-se no selo das poucas cartas que ainda recebo, e por elas as novas do front me alcançam. Vivo o que não vai além de uma sucessão de nadas intercalados com vazios prolongados, e só picos de amnésia ou nostalgia, afluentes deste rio mnemónico, somente neles dou-me conta de minha existência. Se finalmente escrevo-te um retrato mais pessoal do que vivo, se abro mão de nosso trato original, então devo estar exausto e desejoso de um retorno à normalidade.
Mas acredito que desconhece a primavera desta cidade. É minha estação preferida, talvez a única herança verbal que carrego de meu pai. E acredita que não passa de um acaso? Ele gostava da primavera de Praga, como soava, como o lábio se espremia para pronuciar Praga, na Tchecoeslovaquia que ele desconhecia, de um Dubcek que ele desconhecia, de tudo o que ele só havia ouvido dizer e soar, feito badaladas do sino de um crente. É o que ele era. Um crente. Mas não quero falar de meu pai. Prefiro falar da primavera, dessa época do ano em que Perséfone sobe à terra e a terra gesticula da única forma que pode. Embeleza-se. Ontem deixei meu casulo para caminhar pela lagoa desta antiga capital do Império, esse país sem presente e que enterrou o passado em covas nativas. Consegue perceber a principal diferença entre nós e os Americanos do Norte? Eles sentem que a terra lhes fora prometida e que os índios não passavam de caseiros a espera dos verdadeiros donos. Quanto a nós, nada sentimos, nem a casualidade que nos trouxe até esse lugar, e se nossa terra fosse um pequeno canto do outro lado do globo, acordaríamos e iríamos trabalhar da mesma forma, cabisbaixos.
Caminhei até o forte e repeti o mesmo ato costumeiro, sentar-me para observar a água quebrar na encosta e imaginar que do outro lado está a África, o chifre, os túrcos e os árabes, que este pontal erodido nas rochas é cria do tempo, cada fragmento como o átimo gelido de um pulsar, essa bailarina celeste incanssável. Não sei quanto tempo perco nesse vislumbre de seres imaginários que certamente me interessam apenas em lote, genericamente, um ritual de contemplação de quadraturas escandalosamente falseadas, pinturas alegóricas e, devo confessar-me, a execrável negação ao paganismo.
Pareço ignóbil por vacilar e não refletir julgamento coeso sobre essa semiótica da poeira, da poesia, da beleza, que exageramos, como se a dita alma poética, o êxtase, a epifania, fosse mais que uma ilhota, osasis, e todo o resto deserto aronoso. A terra seca e o sol ardente e um vento cortante sem sangue, lanças de poeira, um cisco, afinal, não é o nirvana o oposto de um ponto? Um lago impecavelmente uniforme que não há peixes ou pés ou talvez pequenas ondulações de pedras arremessada por anciões da ribanceira. Devo parecer ignóbil por gabar-me ou desprezar a ciência dessa verdade dita prática? Julgue-nos. Faço também imagem da tribuna e o asco das testemunhas que vociferam ao ver-me entrar no patíbulo. Estrangeiro. Nem isso é ato, nem isso é verdadeiro. Nem isso.
Por que você, criança? É certo que mantenho relações promíscuas com tantas outras, e que tais dispõem-se por ordem de nome, data ou preferência do meu capricho. Só não se preocupe, não escrever-te-ia um testamento por uma foda. Não imagina o quanto incomoda-me estarem os homens berrando a troca de seus reinos por uma marca histórica, e não uma buceta! Perdão. É como vejo as coisas. Fico a acompanhar o trajeto dos passantes pelo caminho de uma a outra casa e, ainda que pudesse narrar a epopéia desse meu gendankenexperiment, quantos são os dias e cada dia, quantas são as linhas do meu imaginário caderno de notas. Nem Joyce teria sido tão prolixo! Já sobre o sexo posso contar-lhe tudo o que quiser. O sexo é dos atos factuais e morais o mais bruto e ridículo. É de nossa natureza, em especial os que se dizem poetas, transcende-lo, retirar-lhe o cunho factual e adentrar na ontologia do amor. Não os culpo. Mas na minha vida pude traçar uma linha divisória entre o ato e o signo, desprezando o segundo.
Por que você, então? Contingência! Tens a possibilidade de com isso, maculada, rasgar-me e dar ao lixo o que é lixo. Não sou uma ofensa à natureza, ao contrário, celebro o que ela é sendo-o também! Alah Akbar! Ontem dancei pela areia feito um Zorba tupiniquim, o mar de testemunha, como um bêbado ridículo ao fim de festa que não tem grana para adentrar na festa, a festa da vida, no meu caso, ou a festa da algazarra inocente dos seres. Rodopiei até alquebrar-me e tomar verdadeira ciência do ridículo que era tudo, não a existência, nada alheio ao que eu ali fazia, não, exatamente o ritual, e o mar, mesmo ao mar eu era crente e nuancês me mordam, sou o último dos Ateus!
Então, a história? Por que sinto que devo conta-la? Por eles, é claro! Não nasci Judeu, Cristão ou Muçulmano. Não guardo ovelhas ou fosse como se as guardasse. Me foge Jerusalem, Meca ou Santiago. Minha terra é de Beduinos, errantes de carne em quais braços nos consumamos. Minha terra é de gente, do Sofista ou de Fernanda. Por eles, é claro. Ainda que Pursewarden tenha razão sobre o escritor, não caberiam aqui palavras que não fosse um testamento a...
posted by Ninguém at 1:25 AM